07 setembro 2015

Cadernos


Na minha adolescência, eu escrevia diário. Ás vezes usando cadernos de escola que não chegava ao fim; mais vezes comprando um especial. Especial porque eu sabia que ele ia ser o meu diário, a cara dele era igual aos outros da escola.

Acabava um e começava outro; escrevi não sei quantos cadernos.
Era uma escrita apressada, de letra virada garrancho, toda esquecida dos exercícios de caligrafia de quando eu era criança. Era um registro compulsório de tudo o que me acontecia: emoção, dúvida, tristeza, expectativa, estava tudo lá. e era compulsório sim: ninguém sabia que eu empilhava aquela escrita toda, nunca tive vontade de mostrar os meus cadernos pra ninguém, e mesmo pensando uma vez que outra, quem sabe um dia eu vou ser escritora? Nunca me ocorreu corrigir um período, uma frase, tampouco abrir o dicionário pra tirar a duvida que tantas vezes me batia, se aqui tinha um S antes do C, se ali tinha acento ou não- mas eu tinha que escrever.
Pra mim, escrever diário era uma cerimonia meio secreta: eu achava superdifícil escrever na sala, ou tendo alguém perto. A impressão era que eu só escrevia mesmo se eu ia pro meu quarto e fechava a porta. Habituei-me. E até hoje, mesmo pra escrever uma carta, o meu primeiro movimento é me isolar e fechar a porta.
Tinha dias que eu escrevia horas a fio.
Tinha dias que eu só escrevia uma pagina.
Mas, se eu não escrevia, eu me afligia. E , muitas vezes, se eu não escrevia de dia, eu acorada no meio da noite pra escrever.

(...)

Foram quase três anos de escrever diário. Não me lembro da ter sentido cansaço ou tedio naquelas horas. Não me lembro de algum dia- um só - ter pensado, essa coisa de ter que escrever é meio chato, não é não?

Fonte: Adaptação, BOJUNGA, Lygia. Livro: Um encontro com Lygia Bojunga. Rio de Janeiro: agr, 1994. p.37 e 38
 Livro gestar Da 8 Serie/9 Ano

Nenhum comentário

Postar um comentário

Desenvolvido por: Adorável Design Editado por: RM Design

imagem-logo